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A energia vital

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.09.11

Nunca tinha visto o filme The Fontainhead, mas depois de tanto me falarem no livro de Ayn Rand, resolvi visualizá-lo na internet. O filme exerceu, desde logo, um terrível impacto sobre mim: aqueles actores! Gary Cooper e Patricia Neal, um dos pares mágicos do cinema! Todos os actores, aliás, se enquadram na perfeição no papel que lhes foi dado. E aquelas cenas bem encadeadas, aquelas lines fabulosas, aqueles cenários, aquela atmosfera!

 

King Vidor domina a linguagem do cinema, já não há planos assim, sequências assim, luz-sombra, aquela simplicidade elegante e animal ao mesmo tempo, a ligação visceral a todos os elementos, terra, pedra, pele, olhar, respiração. É esse o mundo em que o herói se move e que a heroína irá descobrir também e de que irá tentar fugir.

Mas a mensagem do filme irá agitar-nos para sempre: a possibilidade da autonomia no mundo da pressão da opinião pública, a liberdade do indivíduo e o condicionamento do grupo, a criação e a cópia, a vida e a simulação. É certo que Ayn Rand utiliza uma linguagem simples e brutal, como simples e brutal é a verdadeira inteligência e a perspicácia, despojadas de emoções ou sentimentos. Sim, aqui confrontamo-nos com uma inteligência brilhante, magnífica, arrebatadora. E quando isso acontece temos de nos distanciar um pouco para não nos deixarmos encantar e render.

Também já pensámos assim, o indivíduo e a sua vontade de viver e criar e o grupo e a sua mediocridade e domesticação, o indivíduo e a sua coragem, o grupo e a sua cobardia. Quantas vezes nos afastámos dos outros para conseguir respirar, simplesmente respirar? Quantas vezes procurámos o silêncio para conseguir ouvir o nosso próprio coração? Mas a verdade é que já encontrámos no meio da multidão um olhar amável, um sorriso luminoso, a cumplicidade breve e natural da nossa humanidade. E é isso que a autora não revela, compaixão pela fragilidade da existência, pelos momentos fugazes de empatia entre desconhecidos que se cruzam na multidão hostil. Deixamo-nos pois fascinar mas a uma distância segura.

 

Voltemos ao filme. Um arquitecto constrói a sua própria síntese e nesta síntese entram forma e função, a simplicidade, a utilização inovadora dos materiais, coragem provocadora, rasgos de génio. Ora, um arquitecto assim encontra obstáculos pela frente, os adversários naturais numa sociedade orientada para o conformismo e o consenso. Interessante a insistência na palavra consenso. A autora aqui é radical, não pode haver lugar a consensos e o herói prefere trabalhar como um simples operário do que ceder a pressões (e convenhamos, as condições propostas eram inadmissíveis).

 

Uma pedreira onde de vez em quando se ouvem explosões. É este o cenário do primeiro encontro dos dois. Ela, uma crítica de um jornal de grande circulação, sofisticada, fria, distante. Logo que vê aquele homem fica hipnotizada. Gostava de poder descrever esta cena de uma forma mais original, mas não consigo. Ela fixa-o, lá de cima, ele segura o olhar até ela se aperceber. O diálogo dos dois é simplesmente fascinante. Daí para a frente ela irá lutar entre o fascínio que este homem exerce sobre si e a vontade de lhe escapar. Todas as cenas e diálogos são autênticos duelos e, no entanto, o pensamento e sentimentos essenciais estão em perfeita sintonia, ambos se reconhecem um no outro. Dois espíritos autónomos. Ela, um espírito mais rebelde do que propriamente autónomo.

 

A arquitectura, metáfora magnífica de toda a criação, da transformação da natureza, de uma forma sempre nova de estar no mundo e de nele respirar e agir. Na arquitectura a obra ergue-se e permanece por muito tempo, orgulhosamente exposta, um marco, uma referência, uma influência. Em sociedades tradicionais e conformistas esta visibilidade liga-se essencialmente ao poder, tal como há milhares de anos todas as obras que se ergueram e permaneceram. Para o nosso herói a obra não é coisa morta, tem uma vida própria, uma consistência própria, vibra, serve um propósito, e tem muito dos neurónios e da emoção do autor. Esta perspectiva exerce um fascínio desde logo na mulher rebelde e nalguns espíritos raros, mas encontra oposição numa maioria conformista.

 

O filme está perfeito na linguagem do cinema, na atmosfera, na mensagem, nas personagens. Nunca vi tão bem descrita a energia vital de toda a criação, e de toda a vida afinal. O que nos move não é precisamente esse motor interno, esse impulso original, essa primeira curiosidade, caminhar com os nossos próprios meios? Que tipo de sociedades estamos a preparar com a massificação e o conformismo, esse movimento contrário a tudo o que é vivo e criativo?

Interessante este confronto indivíduo-grupo, autonomia-conformismo, criação-cópia, vida-poder. O nosso herói discursa de forma desapaixonada, como desapaixonado é o seu olhar sobre a opinião alheia. Simplesmente não pensa nisso. Essa é a dimensão da sua autonomia. E aqui a autora é radical. De uma radicalidade que nos assusta um pouco, como já disse ali atrás, como se lhe faltasse amabilidade e compaixão. É certo que a multidão, ávida de dramas humanos e de frivolidades, também não é amável nem compassiva. Tritura com a mesma indiferença os que constroem e os que destroem. Mas, por isso mesmo, precisamos de um contra-ponto, de uma bússula, a consciência humana. Nada pode ser assim descrito de forma tão dicotómica, há zonas cinzentas, há oásis no meio do deserto, há sementes a florir no meio do betão, há organização no meio do lixo.

 

Vou ainda voltar ao filme, mas preciso de me familiarizar com as personagens, as cenas e sobretudo os diálogos. Ainda estão demasiado frescos na minha memória. Vamos a ver se me inspiro...

 

As personagens representam características humanas aqui levadas ao extremo na sua limpidez: o autor independente, a crítica rebelde, o director ambicioso, o simulado perverso, o conformista cobarde, etc. Os seus actos são radicais, próprios de personagens-tipo, na vida real é tudo mais fluido e complexo.

Há também drama que baste, porque a inflexibilidade arrasta sempre consigo sofrimento sofrido e infligido, o que seria possível evitar se as pessoas (e as personagens) conseguissem abdicar do poder, da necessidade de deixar a sua marca nos outros e em si próprias. Magoar alguém é o resultado de se magoar a si próprio, mas quase ninguém se apercebe.

Confesso que os dramas baseados nesta vã e desinteressante busca do poder não me seduzem mesmo nada. E as nossas personagens são paradoxais embora não o pareçam: o nosso herói quer deixar uma marca histórica do seu génio, a mulher chega a propor-lhe desistir de uma luta inglória só por ela, o magnata escolhe sair de cena por sua iniciativa depois de garantida a obra da sua vida. Tudo isto contradiz a verdadeira autonomia que não procura o reconhecimento de um público. A verdadeira autonomia basta-se a si própria.

 

Embora todo o drama funcione muito bem em cinema: um triângulo estranho se forma à volta de uma casa de campo, uma atracção adiada por um casamento, um acto destrutivo a meio da noite, um julgamento, o arranha-céus a tocar as nuvens.

Confesso que nunca entendi este fascínio por arranha-céus. É um impulso humano primário que vem desde os megalitos, as pirâmides, os monumentos em altura, as catedrais. E os americanos nunca dispensam as alturas e os precipícios em cinema, vem desde o mudo.

Este final do filme soou-me a um contraponto sem chama para todo um percurso desafiador. Aí vai a mulher até aos céus onde o homem a espera em pose de vencedor. Lembrou-me o King-kong original, do filme dos anos 30. Também o homem pré-histórico terá um dia abotoado aquela pose de vencedor com a presa aos seus pés?

E aqui uma contradição minha: sempre adorei as montanhas em cinema, a subida pelos rochedos íngremes e ásperos, a luz-sombra das pedras, ou a luminosidade da neve. Árvores que se elevam vertiginosamente também me fascinam em cinema. Deveria gostar de arranha-céus mas não, não me interessam mesmo nada. 

 

Voltando ao final com o nosso herói em pose de vencedor, orgulhosamente só, perto das nuvens... Não é o final que eu esperava, mas é o final lógico na lógica do filme.

Só se vence na própria consciência, os medos, o orgulho, as dependências, os jogos de poder, a manipulação. É na consciência de cada um que tudo se passa. É esse o verdadeiro teatro da vida, o confronto entre as várias tendências humanas. De resto, a maioria dos actos e palavras são distraídos e irreflectidos, a tal opinião pública facilmente manipulada que o filme retrata tão bem.

Mas esta fórmula autonomia-conformismo ainda não está compreendida e resolvida. No filme todos procuram o poder embora não pareça. Há, no entanto, aquela parte do discurso do nosso herói, em que refere a troca de serviços livre e baseada na competência de cada um. Aí a autora aproximou-se da possibilidade de uma sociedade organizada na base da autonomia e não da servidão.   

Hoje como nunca este tema é actual, basta olhar em volta, tudo é estudos de mercado, formação de opinião, as sondagens, a massificação levada ao extremo. E no entanto... nunca como hoje a possibilidade de ter acesso à concretização de sonhos antes inacessíveis, pela informação, tecnologia e ferramentas.

E isto também no cinema, nunca tivemos tantos meios, comparando com a década de 40, e tão pouco entusiasmo. Onde está essa magia perdida de estar a desbravar terreno, a desenvolver uma nova linguagem?

 

 

Muitos dias depois: À distância temporal, o diálogo que mais me incomodou neste filme nem foi o diálogo constrangedor entre a mulher rebelde e o namorado da altura, um arquitecto ambicioso mas medíocre e conformista, em casa do director do jornal onde ela tarbalha e que os convidara. Podia ser, pois tem todos os ingredientes de uma situação verdadeiramente decadente: confrontado entre a carreira promissora de arquitecto, aquele homem conformista escolhe a carreira à namorada. Assim, sem mais nem menos. Dirige-se à mulher nestes termos, mais coisa menos coisa: Se achas bem, por mim tudo bem também. Sem qualquer vestígio de conflito interno nem dor da despedida. E sai de cena, como se nada de decisivo ou fundamental tivesse acontecido na sua vida a partir daquela escolha.

Não, o diálogo que me incomodou ainda mais do que este, foi o diálogo entre este arquitecto, ambicioso, medíocre e conformista, e o nosso herói. Já entalado entre o sucesso de uma carreira construída sobre a capacidade de compromissos sucessivos e a incapacidade técnica e criativa de resolver um projecto que exigia inovação e ousadia, pede ao nosso herói que o ajude. Este coloca-o perante a promessa de exigir que o projecto seja respeitado na íntegra, que não lhe façam qualquer alteração. O colega aceita. Mas aqui o que me incomodou foi o discurso do nosso herói que traduz, a meu ver, a ideia fundamental da autora: A diferença entre nós é que tu fazes uma obra a pensar nas pessoas que a vão utilizar, habitar. Eu penso apenas na obra, na obra em si! A obra de um criador é a sua fonte de inspiração, a razão do seu empenho!

Isto é assustador e perigoso. Porque se trata de um pensamento sedutor e arrebatador, que pode levar a terríveis equívocos. A obra em si, o valor supremo, e tudo se lhe deve submeter! A alternativa é a mediocridade e o conformismo das massas.

A escolha não está entre estas duas variáveis, entre o criador inteligente e superior e as massas ignorantes e medíocres. A escolha está precisamente na consciência individual, de cada um, é aí que se passa o verdadeiro teatro da vida e das escolhas fundamentais. A consciência como o espaço-tempo da observação e da reflexão. Em que se pode escolher entre a autonomia e o conformismo. Mas em que a obra, uma qualquer obra, não vale por si só, não é o valor supremo. O valor supremo é a vida, a vida real, frágil, palpitante.

Os nossos heróis são demasiado orgulhosos para o entender, também à sua maneira confundem coragem com linguagem do poder, com a lógica da morte e do vazio. No seu mundo, no espaço onde se sentem vivos, perto das nuvens, há uma distância entre si e o mundo das massas, conveniente e intransponível. Uma consciência assim formada só cria fracturas, a pensar que cria obras-primas, intemporais, como as que ainda vemos sobreviver a séculos de civilizações perdidas. Já não vemos vestígios dos seus habitantes ou da sua forma de vida, mas vemos vestígios da organização do poder: pirâmides, torres, sarcófagos.

A obra vale pela sua utilidade e funcionalidade em relação à vida, à consciência viva, a meu ver. Traduz um certo tempo-espaço, provoca, desmonta, anima, agita, não lhe somos indiferentes. Mas não vale por si mesma. O seu valor está no nosso olhar, na nossa consciência. Na própria vida.

 

 

 

 

 

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publicado às 17:25

A lógica da mosca e da aranha

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.07.11

Já há muitos anos que não via o filme Sunset Boulevard. O que retive então foi um monólogo de um homem morto a boiar numa piscina e de uma mulher obcecada com as câmaras e as luzes a incidir no seu rosto, enquanto desce a escadaria.

Revi-o há duas semanas e constatei que o nosso olhar muda com o tempo: desta vez o que me prendeu ao filme, além desse monólogo do William Holden (um dos meus heróis a que me falta dedicar um post), foi a terrível lógica da mosca e da aranha.

Eu explico: a aranha está muito quieta na sua teia, à espera de uma mosca inadvertida. A mosca anda sempre um pouco perdida à procura de uma oportunidade, move-se em círculos até cair na teia.

É o que acontece ao William Holden, aqui no papel de um argumentista à procura do reconhecimento do seu trabalho. Encontra, por mero acaso, a possibilidade de um trabalho bem pago na revisão de um guião escrito por uma antiga estrela de cinema. Embora na altura perceba a loucura do egocentrismo levado ao extremo nesse projecto de guião, concebido para si própria, na mediocridade infantil desse projecto de guião, o nosso herói aceita o trabalho, como uma fuga possível dos seus problemas financeiros.

É a gaiola doirada em construção, ainda invisível, a formar-se à sua volta como uma prisão a que não conseguirá escapar.

 

Toda a atmosfera daquela mansão decadente nos revela a loucura da mulher obcecada por si própria e pelo receio de envelhecer. Conseguir esta atmosfera em cinema é muito raro, é uma arte que só alguns realizadores dominam. Billy Wilder é um deles.

O próprio assistente da estrela decadente é uma personagem sinistra que a idolatra e que lhe alimenta a loucura escrevendo, ele próprio, as cartas dos supostos admiradores.

Vemos, com horror e alguma repugnância, a forma como um homem que queria viver através da sua criatividade, se transforma, a pouco e pouco, no gigolo daquela mulher possessiva. A decadência começa também na dependência, na perda de dignidade pessoal, de respeito por si próprio, na negação da felicidade possível, ao recusar o amor para ceder à chantagem emocional da actriz. E finalmente na auto-destruição, acabando a boiar na piscina.

 

Billy Wilder, o realizador que constrói cuidadosamente as personagens e o seu ambiente, que domina o ritmo das cenas, que nos transporta aqui até uma mansão fechada sobre si mesma, como um mausoléu onde se venera um passado esquecido por todos, onde se idolatram egocentrismos decadentes. A utilização de um monólogo, e ainda por cima de um morto, é genial. Porque só mesmo um morto para nos descrever essa mansão-mausoléu e personagens loucas que vivem num passado morto. Só mesmo um morto para descrever o que lhe aconteceu até esse final na piscina.

 

William Holden, o actor que nos deslumbra com a sua presença elegante, de homem calmo e confiante, capaz de sonhos e de entusiasmo, mas ainda assim vulnerável pela sua ingenuidade.

Já o coloquei a navegar neste rio, no Picnic, um dos seus papéis mais impressionantes. A ele voltarei aqui enquanto um dos meus heróis de sempre: o homem em quem se confia. 

 

 

 

 

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publicado às 18:52

A vida sonhada

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.11.08

 

A obsessão dos sonhos infantis. Sonhar com o Paraíso e descobrir que se perdeu o essencial, e que o Paraíso é, afinal, um mausoléu.
Fascinante, perfeita, esta reprodução fiel de toda uma atmosfera irreal. Porque irreal é a vida da rapariga, Angel. As grandes ilusões, as busca que julga essenciais, só porque em criança olhou, através de um portão, todo um mundo que lhe pareceu mágico: o Paraíso.
Vemos tratar-se de um melodrama. E vemos que aquela atmosfera nos lembra outra época do cinema: cenários delirantes, salas enormes, janelas altíssimas, reposteiros que parecem descair do céu. François Ozon dir-nos-á, na entrevista (no DVD), que Angel é essencialmente uma homenagem aos retratos de época dos anos 30 e 40, muitas vezes elaborados por realizadores europeus, expatriados devido à guerra.
Revela ainda ter ficado fascinado com o livro (1) e com a personagem Angel que é baseada, aliás, numa grande escritora, contemporânea de Óscar Wilde e preferida da Rainha Vitória, actualmente completamente desconhecida, mesmo do público inglês. Terá sido uma das primeiras escritoras inglesas com best-sellers. E explica que, na sua adaptação, procurou alimentar-se das suas próprias obsessões, da sua visão do livro, da sua interpretação do enredo. Refere ainda que Angel não é uma personagem simpática, inspira sedução e rejeição. (2)
É fascinante acompanhar este amor ao Cinema, esta paixão, diria mesmo, de François Ozon! E isso é visível na entrevista. Para evidenciar que a história de Angel está mais na sua cabeça do que na realidade, por exemplo, recorre a técnicas utilizadas no Cinema até aos anos 50: montagens de imagens que passam por trás dos actores. (3)
Quem ama o Cinema, o cinema-arte, o cinema quase perdido, gostará de ver Angel. O enredo é melodramático, intenso, excessivo. François Ozon dar-lhe-á uns retoques que resultarão de forma surpreendente no filme. E as personagens, muito bem construídas. Os actores, maravilhosamente dirigidos. (4)

 

E vamos então às personagens:
Angel: cria um mundo de fantasia onde vive e se refugia. Dela se poderá dizer que a loucura é sedutora e que os sonhos infantis são obsessivos. Sonha com uma vida principesca, como a crianças. Nega e rejeita a sua realidade, de quem mora por cima da mercearia, onde a mãe passa o dia, numa rua que considera feia e deprimente. A lógica da sua vida será essa: perseguir o sonho até o encontrar.
A mãe de Angel: simboliza a vida simples, a sensatez, a dedicação, a responsabilidade, o convívio, os afectos genuínos, a generosidade. É o grande amor pela filha que a perderá. Deixar-se-á envolver pela sua loucura, segui-la-á naturalmente para o casarão e aí murchará a olhos vistos. Ali não há lugar para o convívio sequer. Perdeu todas as referências: o contacto com afectos genuínos, uma rotina de cuidar dos outros, de ser útil e necessária a alguém.
O editor: ficará de imediato fascinado, seduzido, por toda aquela energia de Angel, que tentará disciplinar um pouco, mas sem qualquer resultado. A rapariga é obstinada, completamente fechada a sugestões. Para quem já tem todo o seu futuro programado na cabeça, ao ponto de nada nem ninguém lho poder alterar, como poderia aceitar alterar pormenores dos seus romances delirantes? Mas o editor já se rendera ao seu encanto e, além de publicar os seus romances delirantes, sem nada alterar, será para ela uma figura paternal, recebê-la-á em casa, apesar da irritação que provoca na mulher, que não tem paciência para raparigas patetas.
A mulher do editor: ainda atraente, há nela uma mistura sedutora de sensatez e de ironia, cultura e requinte, inteligência e frontalidade. Talvez um pouco cínica, mas apenas como forma de se adaptar melhor a uma sociedade artificial e fútil onde o casal se movimenta. Inicialmente irritada e impaciente com aquela criatura arrogante, lamentará mais tarde os seus infortúnios e aceitará filosoficamente o fascínio do marido por ela.
Esmé, o marido de Angel: o homem em quem Angel fixa a sua obsessão. O seu amor (dela) é intenso, excessivo, sufocante. Deixa-se amar por ela, porque lhe convém a protecção financeira. Ou também porque ela é a única que acredita no seu valor artístico. François Ozon coloca-o, no filme, como representante dos artistas que se antecipam à sua época, os incompreendidos: vemos os seus quadros empilhados no estúdio porque ninguém lhos compra, a não ser Angel.
Nora, a irmã de Esmé: é a amiga fiel, sim, como um cão fiel, que vive na sombra de Angel. É a pessoa que idolatra os outros, apagando-se. De certo modo, aqui a alimentar o narcisismo, o egocentrismo de Angel. É um suporte emocional e afectivo, a confidente, com quem se conta sempre. Ficará com Angel até ao fim...
Mas antes de verem o filme e descobrirem como François Ozon transportou a história para a linguagem do Cinema, fechando-a, de forma dramática, as cenas que escolhi:

- nessa noite fria, quase fantasmagórica, Angel e o editor olham, através do portão, o Paraíso. Angel fala-lhe do seu sonho de infância, de como passava por ali e ficava a olhar, através das grades do portão, todo um mundo sonhado... O editor ouve-a, atentamente. E então colhe uma flor de uma trepadeira e oferece-lha: Uma dádiva do Paraíso...
- o editor conversa com a mulher e fica surpreendido ao vê-la dizer que lamenta o infortúnio da rapariga: Não consigo aceitar a escritora, mas aprendi a admirar a mulher, a forma como lutou pelos seus sonhos. E mais surpreendido fica quando a mulher lhe pergunta se ainda está apaixonado por ela: O que te leva a dizer isso? A mulher responde: Os teus olhos...

 

Angel verá, no final, que a sua foi uma vida sonhada. Mas nós sabemos que houve alguns momentos de verdade. Foi ao editor que ela confiou o seu sonho e os seus medos: a fealdade de uma rua e de uma vida obscura.
Aqui sobrevivem e resistem as personagens que melhor se adaptam à vida real. Nora irá tentar manter a sua memória, embora, como diz ao editor, os seus livros já não sejam populares. François Ozon consegue aqui uma certa ironia histórica: Angel, que utiliza a sua arte para agradar ao público, o que a torna famosa e rica, é completamente esquecida; Esmé que, contrariamente a Angel, procura na arte a autenticidade e que é incompreendido na sua
época, será reconhecido após a sua morte.

 

(1) de Elizabeth Taylor, sim, perceberam bem...

(2) Para construir a personagem Angel, inspirou-se em Scarlett O'Hara - magnífica Vivian Leigh!

(3) Lembram-se dos filmes em que os actores viajam de carro, sobretudo, e a imagem corre por trás? Hitchcock utilizou-a com frequência.

(4) ...com algumas peripécias de comunicação: deliciosa descrição da reacção de Sam Neill que não percebe o francês e que é apoiado pela colega e amiga Charlotte Rampling.

 

 

 

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publicado às 12:11

Manhattan

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.04.08

 

Manhattan…Woody Allen e Nova Iorque. Woody Allen e os diálogos delirantes. Woody Allen e Gershwin. A preto e branco.

Woody Allen frenético nos monólogos, onde várias ideias se cruzam, sempre um pouco neuróticas (bem, muito neuróticas...).

Nelerevemo-nos tantas vezes… As nossas pequenas existências, muitas vezes baralhadas, trocadas, torcidas, mas sempre (bem, quase sempre…) cómicas.

Manhattan, pois. O amor pela cidade de Nova Iorque nas imagens da cidade, a preto e branco, e na música de Gershwin. E logo a seguir o amor real, à escala humana, embora de duração tão improvável (daí o seu maior valor…) entre um cínico neurótico e uma rapariga simples e carinhosa. Amor que, apesar das inseguranças do homem, sobreviverá no final da história. E finalmente as dúvidas filosóficas sobre a vida, a solidão, os afectos, as inseguranças humanas.

Cenas inesquecíveis:

As conversas a dois, com a rapariga, em que Woody a aconselha a viver e a voar, que tem a vida à sua frente, ele é velho para ela… e a cena da despedida, verdadeiramente dorida de tão discreta na sua dor (doce doce Muriel…);

As dúvidas de Woody sobre a sua capacidade de comediante, mudando o rumo para viver da escrita e ficando com problemas acrescidos de dificuldades financeiras: perfeitamente visíveis no novo apartamento e na cor castanha da água que sai da torneira;

Todas as conversas dos dois amigos sobre as mulheres, os afectos, as complicações, os problemas financeiros, a cidade, os carros (Woody só se movimenta de táxi, recusando-se a contribuir para a poluição global e engarrafamentos) e as conversas a quatro, com uma Diane Keaton armada em filósofa arrogante, a criticar escritores (enquanto caminham, ao longo do passeio) e as obras na exposição (quando de novo se encontram os quatro);

Toda a visita ao planetário, Woody com Diane, dois perfeitos neuróticos… e a correria no parque debaixo da tempestade chuvosa…

Mas a cena mais impressionante é a final, no hall de entrada do prédio de Muriel, naquela troca de papéis. Tens de aprender a confiar... nem todas as pessoas são iguais... dir-lhe-á a rapariga, malas prontas, bilhete de avião na mão. Nesta cena é risível o ar de rapazinho mimado que o Woody afivela para a convencer a ficar. Ainda mais risível porque ao longo do filme é ele que a incentiva a avançar com a sua vida, é muito jovem, a diferença de idades, etc. e tal... Mas aqui vence o medo de ficar sem ela, de naqueles meses de ausência ela conhecer outro, jovem como ela... Mas a Muriel está segura, e aqui é ela a adulta da relação, lembrando-nos a constância e a lealdade, perdidas em tantos adultos...

 

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publicado às 16:42


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